
Although breathing has been an essential component of voice training for centuries, it has not had the same overarching priority in dance.” (Melton, J. 2012)
Jon Menton questiona-nos enquanto bailarinos/ coreógrafos/ professores sobre a importância da respiração na prática de dança. É um facto que quando um bailarino entra em palco, cria uma esfera à sua volta onde respirar apesar de prioritário, não é de todo um movimento consciente. Embora precisemos do ar para viver, o bailarino fá-lo de forma inconsciente quer a nível corporal, como mental. Assim, o mecanismo involuntário de inspirar e expirar assume um papel secundário no trabalho desenvolvido não só no palco, como principalmente nas aulas de técnica.
Pessoalmente subscrevo a ideia do coreógrafo Jen Littlefield (NY) quando faz referência à importância da respiração nas aulas que lecciona, como se pode ler pelas suas próprias palavras: “Something we always tell dancers, especially beginning dancers, is, «Remember your breath». If you hold your breath, it tenses everything up.” (Melton, J. 2012) Podemos analisar esta perspectiva em duas vertentes: a respiração na sua qualidade conotativa de manutenção e oxigenação de todo o corpo humano; e na qualidade de factor decisivo na expressividade, musicalidade e alongamento do movimento na sua vertente artística. Ambas se encontram intrinsecamente conectadas.
RESPIRAÇÃO: MEIO DE OXIGENAÇÃO
Durante os exercícios de uma aula de Técnica o grau de dificuldade vai aumentando, exigindo força, flexibilidade, destreza, velocidade, entre outras competências, que constantemente testam os limites das capacidades dos músculos e das articulações do bailarino. Tal como Rusty Curcio (NYC) afirma “an intellectual response to a difficult moment is to bind and constrict. Now that does affect breath and we’re perceived as not breathing. Of course, there is something happening, but we’re restricting the full capacity of the breath, mostly out of fear or response to executing a difficult move that requires ultimate control.” (Melton, J. 2012) Desta forma, trabalhar uma respiração eficiente é um trabalho que tem de ser começado desde cedo. Aprender a contrariar o nosso instinto de contracção, de retenção de ar é um factor essencial na prática da dança, já que promove uma boa oxigenação o que permite ao músculo um trabalho de maior e melhor qualidade. Quando isso não acontece, a acumulação de ácido láctico, que provoca dores musculares, é por norma um dos sintomas de uma respiração deficiente.
Analisando o processo respiratório: quando inspiramos, os músculos aumentam o espaço entre as costelas exercendo uma notável influência sobre a dinâmica da respiração. Segundo Luiza Banov e Antonia Bankoff sabe-se que “para executar eficientemente o ciclo respiratório é importante ter-se uma coluna vertebral considerada normal e equilibrada, já que esta possibilitará a expansão necessária da caixa torácica. Sabemos que os desvios posturais instalados na coluna vertebral influenciam negativamente o ciclo respiratório. Assim, pode-se ver que a respiração está ligada diretamente com a nossa coluna.” (Banov, L. & Bankoff, A., 2009, pp. 123) A respiração não só está conectada com a coluna como com todo o corpo. Normalmente na dança a inspiração deve estar associada a movimentos de suspensão, expressão e libertação do corpo. Por oposição, quando falamos de expiração normalmente remetemos para movimentos de grande exigência física, como é o caso da realização de um developé ou de um grand battemant. A relação criada entre estes dois movimentos respiratórios (aliados ao restante movimento corporal) com as capacidades interpretativas resulta numa explosão artistica e saudável da prática da dança.
RESPIRAÇÃO: PILAR DA EXPRESSÃO ARTÍSTICA
A qualidade da respiração numa aula/ ensaio/ espectáculo é fundamental porque promove a canalização da energia para todo o corpo que trabalha em função do tempo e do espaço, isto permite-lhe fluência no movimento e continuidade do mesmo. A resposta de Sarah Chin (NYC) à pergunta Qual é a diferença entre a respiração involuntária ou com consciência corporal? do actor Ian Antal reflecte precisamente esta questão: “It’s the difference between just letting yourself kind of buzz around in a nebulous, versus putting the movement down straight through your core, and then sending it out through your legs.” (Melton, J. 2012) É através da respiração que o bailarino encontra a sua musicalidade e interpretação, pois a execução do movimento resulta não só de uma reação mecanica e motora, mas também advém de uma intenção, de continuidade, de um seguimento logico e organico do movimento.
A respiração também se encontra instrinsecamente ligada às capacidades interpretativas de uma pessoa. Vejamos, “a respiração reflecte o estado psicológico de uma pessoa: diferentes emoções apresentam diferentes respirações, sendo que a respiração pode mostrar diferentes expressões de diferentes pensamentos. Por exemplo: quando uma pessoa está tensa, a respiração tende a ser curta e rápida, e o ar é um pouco retido; se a pessoa está brava,a respiração deve ser pesada. Isso mostra que não somente a face reflecte as mudanças de humor, mas também a respiração as reflecte directamente.” (Zou, M., 2010, pp.28) Assim, o bailarino recorre à sua linguagem corporal para se expressar, onde se podem ver reflectidas diferenças significativas em termos do uso da sua respiração. Segundo Viana (1990) através da dança o homem transforma os movimentos de seu mundo interior tornando-os mais conscientes para si mesmo e para o espectador. Além disso, ele reage ao mundo exterior e tenta aprender os “fenômenos do universo”. O autor afirma ainda que o mundo (vida, homem etc.) se manifesta através do movimento e que este, ao se juntar com a melodia, ritmo e harmonia se torna à dança.
Conclusão
A respiração na dança é algo que quando é abordado de uma forma correta poderá trazer inúmeros benefícios, assim como uma melhor compreensão do movimento e do corpo humano. Para os professores traduz-se numa ferramenta essencial no ensino da dança, devendo de forma recorrente abordar esta temática na aula.
Abordagem desta temática por Raquel Leão (Fisioterapeuta e Bailarina) num workshop intitulado de “Respiração e Movimento”:
Bibliografia:
- Banov, L. R. F. & Bankoff, A. D. P. (2009). Influência da respiração na melhora da postura corporal em praticantes da dança: um estudo de caso. (122 a 133).
- Melton, J. (2012)Dancers on breathing – from Interviews and Other Conversations. Wellington: New Zealand Association of Teachers of Singing Library.
- Vianna, K. A dança. São Paulo: Siciliano, 1990.
- Zou, Mi (2010). Respiração artística na Dança: uma experiência de criação e análises de algumas danças étnicas Chinesas. Dissertação de mestrado, Universidade de Brasília, Brasília.
olá Susana, muito legal sua iniciativa. Também gostei muito da escolha dos textos e autores. Fiquei feliz também que tenha citado meu trabalho de respiração e movimento!! Realmente falar e aplicar sobre esse tema é de extrema importância para o bailarino. Pena que falamos tão pouco sobre!
Sucesso!!!!
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