Método Suzuki: uma ferramenta extensível ao ensino da dança?

Biografia

Fonte: http://irvingtonsuzuki.com/
Shinichi Suzuki

Shinichi Suzuki nasceu em Nagoya, no Japão, em 1898. Durante a sua infância trabalhou na fábrica do seu pai, algo que teve influência no desenvolvimento da sua carreira posterior. Nos anos 20 estou música ocidental na Alemanha com Karl Klingler. Um dado curioso desta época foi que Suzuki passou algum tempo sob a guarda de Albert Einstein. Foi também na Alemanha que conheceu Waltraud Prange com quem se casou. Na década de 1930 que começou a leccionar no Japão, já num período pós-guerra. Suzuki desenvolveu um método de ensino especializado para violinos, que actualmente é aplicado a outros instrumentos, inclusive outras áreas. Citando Alexandra Trindade “Deverich (2006) aponta alguns indícios de que a criação do Método Suzuki poderá não ter sido original. Segundo o autor, em 1897, em Inglaterra, a Murdoch Company criou a Maidstone School Orchestra Association (MSOA) para promover um método intitulado All Saints’ National School, em Maidstone.” (Trindade, 2010, p.13). Trindade (2010) assume de forma hipotética que poderá ter existido contacto com o Movimento Maidstone por parte de Masakichi, pai de Shinichi Suzuki. Embora, sem confirmação existem alguns pontos comuns entre estas duas iniciativas pedagógicas.

 

Em que consiste o método Suzuki?

Suzuki tinha a percepção de que as crianças quando são pequenas têm uma capacidade excepcional para apreender conteúdos, como se pode observar pela aquisição de competências como o andar, falar, entre outras. Desta forma, as crianças encontram-se de mente aberta e desperta, prontas a dar resposta a qualquer tipo de estímulo. As influências externas a que estão sujeitas ditam em muito o seu desenvolvimento psico-motor. A sua inteligência depende desta troca de informações entre indivíduos e meio. Shinichi apoderou-se deste conceito e aplicou-o da seguinte forma na construção de um método:

  • Método aplicado à arte da música. Suzuki desenvolveu este método para o seu instrumento, o violino. No entanto, hoje a realidade é diferente, segundo a Associação Americana do método SuzukiMaterials are now available for viola, cello, bass, piano, flute, harp, guitar, recorder and voice.” (SAA, 2014).
  • Método que recorre à aprendizagem através da língua mãe. Uma vez, que as crianças estão a adquirir competências em termos cognitivos e a fala é uma delas, a aprendizagem através da língua mãe é mais lógica, orgânica, memorizável e natural.
  • Método aplicável a partir dos 2 anos. “A criança poderá iniciar o estudo do instrumento a partir dos 2 ou 3 anos de idade. A prática de audição deverá ser uma rotina diária durante todo o processo de aprendizagem.” (Trindade, 2010, p.20)
  • Método que exige uma participação activa por parte dos pais. O método “é centrado na criação de um ambiente musical rico em estímulos, repleto de bons exemplos e elogios, semelhante ao ambiente em que a criança aprende a sua língua materna. Os pais são peças essenciais no processo de aprendizagem, e, com a orientação do professor, são co-responsáveis pela condução da criança nas diversas etapas do aprendizado musical. Por isso devem estar dispostos a conhecer os alicerces das estratégias Suzuki e participar activa e positivamente das aulas estimulando, incentivando, encorajando, confortando e orientando em sintonia com o professor.” (Centro Suzuki de Educação Musical [CSEM]) Inclusive este processo de aprendizagem ocorre desde o nascimento já que a criança pode e deve ser exposta à música com qualidade, a fim de educar o seu ouvido correctamente, promovendo a memorização de melodias, entre outros.
Fonte: https://suzukiassociation.org
Aula de Música para bebés
  • Método do ensino por prazer. As crianças são “inseridas num contexto onde a música é um prazer e as dificuldades são encaradas como etapas naturais”. (CSEM) Tal como defende a Suzuki Association of the Americas [SAA] (2014) quando afirma que “the child’s effort to learn an instrument should be met with sincere praise and encouragement. Each child learns at his/her own rate, building on small steps so that each one can be mastered. Children are also encouraged to support each other’s efforts, fostering an attitude of generosity and cooperation.” 
  • Método da memorização através da repetição. “A repetição de movimentos de passagens isoladas ou mesmo obras completas cria novas conexões no cérebro, fortalecidas pelos neurónios e sinapses ao ponto de se tornarem automatizadas.” (Trindade, 2010, p.23) É através desta ideia que se estabelece o processo de aprendizagem pelo método Suzuki. Vejamos, se a criança ouve a música que mãe coloca a dar, e essa é a mesma, que o professor toca na aula, e os colegas praticam nos tempos livres, o processo de memorização ocorre de forma eficaz, consequentemente a criança não terá dificuldade em toca-la. Segundo (SAA, 2014) “Constant repetition is essential in learning to play an instrument. Children do not learn a word or piece of music and then discard it. They add it to their vocabulary or repertoire, gradually using it in new and more sophisticated ways.”
  • Método composto por aulas individuais e colectivas. As aulas de grupo são uma fonte de inspiração, onde os alunos em conjunto, num ambiente estimulante produzem música. As lacunas que existem em cada aluno são trabalhadas de forma individual, não só com o professor como também pelos pais. “A cooperação toma o lugar da competição, incentivando o respeito à individualidade e a busca pela qualidade.” (CSEM)

Poderá este método ser aplicado à dança?

É um facto que a maioria dos pais coloca as suas filhas em aulas de ballet, mas na maioria das vezes não compreendem aquilo que lhes é dado em sala de aula. Quando falamos de aulas de dança para crianças pequenas (1 ano até aos 8 anos) há que compreender que o que se pretende obter é um ambiente criativo e dinâmico que promova o desenvolvimento TOTAL do aluno (desenvolvimento pessoal, social e emocional, físico, criativo e expressivo/comunicativo). Consequentemente, a aula deve conter uma temática, para desenvolver a capacidade de representação na criança e à semelhança do método Suzuki deve ser um espaço lúdico, onde a criança aprende através do prazer que a própria actividade lhe confere. Na dança a primeira forma de aprendizagem surge da “cópia”, por isso é muito importante que o próprio professor incite diferentes formas, dinâmicas, gestos, para que a própria criança através da repetição vá adquirindo alguns tipos de competências, mais que não seja a memória. A maior descoberta da aplicação do método Suzuki à dança passa por dois pontos:

  • A participação activa dos pais no processo de aprendizagem – Há que reconhecer que infelizmente muitos pais associam o ensino da dança apenas ao tempo de estúdio, inclusive poucas são as instituições que envolvem de forma activa os pais na formação dos seus filhos. Vejamos, se em casa os pais potenciam a visualização de um bailado, levam os seus filhos ao Teatro, incentivam-nos a trabalhar aquele movimento que não sabe fazer tão bem, a demonstrar em frente à família a  peça de natal, etc … certamente os estímulos que a criança recebeu em casa irão traduzir-se em mecanismos essenciais para uma aprendizagem mais rápida e eficaz em sala de aula, promovendo um ambiente de harmonia e complementaridade para o aluno.
  • Conjugação de aulas colectivas com aulas individuais – Este é um hábito pouco comum na dança. Quanto muito o professor costuma guardar alguns minutos do final da sua aula para tirar dúvidas ou ajudar em algo que o aluno não tenha compreendido. No entanto, a aula individual é algo que poderia ser aplicável, principalmente quando um professor contém uma turma com níveis muito diferentes de técnica. Este conceito cria uma possibilidade mais coesa do aluno poder melhorar de forma eficaz as suas dificuldades e não se sentir desconectado face à restante turma.

Neste sentido e respondendo à questão inicial, é possível que o método Suzuki seja aplicado à dança. A diferença entre o uso deste método, ou não, reside no encarar o processo de aprendizagem e desenvolvimento da criança através da dança, como sendo algo fundamental e essencial na sua vida. Assim sendo, este método aplicado à dança promove desde muito cedo na criança um ambiente rico em estímulos, que irão potenciar o seu crescimento a todos os níveis.

Registos do método Suzuki em Portugal:

Nuno Gil é veterano no Suzuki Method Actors Training Programme 2001/2/3 realizado em Toga Mura, Japão, no seio da companhia SCOT (Suzuki Company of Toga). Em Junho de 2014 deu um workshop acerca de Técnicas de View Points e Método Suzuki na Companhia Olga Roriz.

Heather Hakes é o único contacto português que aparece no site da Associação Americana do Método Suzuki. Email: hakes.heather@gmail.com


Bibliografia:

  • International Suzuki Association (2014). The Suzuki Method. Consultado em Outubro 27, 2014, em http://internationalsuzuki.org/method.htm;
  • Luz, C. C. G. G. (2004). Violinistas e método Suzuki: um estudo com egressos do centro Suzuki de Santa Maria. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil.
  • Suzuki Association of the Americas (2014). About the Suzuki Method. Consultado em Outubro 27, 2014, em suzukiassociation.org;
  • Trindade, A. S. M. S. (2010). A Iniciação em Violino e a Introdução do Método Suzuki em Portugal. Dissertação de Mestrado, Universidade de Aveiro, Aveiro, Portugal.

“The main concern for parents should be to bring up their children as noble human beings. That is sufficient. If this is not their greatest hope, in the end the child may take a road contrary to their expectations. Children can play very well. We must try to make them splendid in mind and heart also.”

Shinichi Suzuki

One thought on “Método Suzuki: uma ferramenta extensível ao ensino da dança?

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