A técnica Flying low foi desenvolvida por David Zambrano, um bailarino e coreógrafo Venezuelano. Esta técnica tem como principais objectivos dar reposta a dois princípios básicos: a alternância entre o ir e voltar do chão; e a percepção de “gathering” e “sending”, e a sua relação de contraste. Assim, através de uma movimentação que explora todas as possibilidades com base nestas duas ideias, David Zambrano criou uma técnica com uma perspectiva distinta de tantas outras. Esta técnica é caracterizada pela movimentação rápida e em espiral, capaz de provocar fortes dinâmicas corporais e visuais. Desta forma, o bailarino é envolvido numa espiral de sensações, potenciando a sua criatividade e pesquisa pessoal partindo da noção “through me”.
Qual a origem desta técnica?
David Zambrano reconhece que as técnicas de Dança Contemporânea mais recentes, finais do século XX, tiveram uma grande influência no desenvolvimento da sua técnica. Considera como grandes inspirações para o seu trabalho Joan Skinner, Simone Forti e as artes marciais. Mas como tudo começou? Numa entrevista David Zambrano explica que “when he started fully dancing in 1981 (…) he lost the ligaments of the arches of the feet and they collapsed and then (…) he just couldn’t walk anymore. (…) he didn’t want to stop so he went on the floor and rolled from side to side, side to side …little by little he started discovering possibilities to continue moving, non vertical but horizontal and then a lot of dancers liked that, when they saw him all the time doing it, so they asked him to teach that.” (Hukam, 2009). Assim, durante anos foi ensinando o que tinha pesquisado, e as pessoas costumavam dizer-lhe frequentemente que parecia que ele voava baixo (flying low), desta forma surgiu o nome da técnica de dança.
Nesta entrevista, David Zambrano explica como surgiu a técnica e em que é que consiste (video promovido pela Northern School of Contemporary Dance):
Em que consiste esta técnica?
Tal como pode ser observado acima esta técnica consiste numa abordagem muito próxima e intima com o chão. Os exercícios da sua aula englobam noções de respiração, velocidade e libertação de energia do corpo. Para a execução dos exercícios um dos princípios importantes é o centro, que na constante alternância entre o chão e a posição vertical é o que permite uma movimentação rápida e eficiente. O objectivo enumerado por David Zambrano é que a movimentação do corpo seja semelhante à de uma bola de fogo, que se desloca de forma rápida e compacta. Assim, o corpo quando recolhe deve “absorver” da terra e movimentar-se como um todo.
Flying low é uma técnica especifica que trabalha o corpo, recorrendo ao movimento como uma forma de entrar em contacto consigo mesmo, com os outros, com a sala, e com o mundo. Assim, explica David Zambrano a partir dos conceitos “through me & send out” e “into the earth & out of the earth”. Neste sentido, a movimentação do corpo é fruto de uma espiral constante, cujo intuito é scanarizar cada parte do corpo no seu mais pequeno detalhe. Esta movimentação ocorre sempre em constante conexão com a sala e as pessoas da sala, promovendo e desenvolvendo a noção de awereness (percepção do espaço, do outro, do movimento). É sugerido a cada um que convide as outras pessoas da sala a percorrer o caminho em conjunto. Colada à noção de “scan”, David Zambrano refere também os termos “gathering” e “sending”, que respectivamente significa a recolha de algo, para enviar, cuja viagem se deve traduzir na percepção de penetração, por oposição ao pushing que tradicionalmente se usa.
Quando foi questionado sobre o porquê desta técnica ser realizada normalmente tão rápida, David Zambrano respondeu que esta é uma forma de proporcionar o “Momentum”, isto é, uma altura do movimento em que a gravidade é desafiada e se traduz na sensação de estarmos a voar junto ao chão, além de que este encara como uma oportunidade para testar os nossos reflexos naturais. Quão rápidos podemos ser?
Nas aulas de Flying low normalmente há trabalho a par ou de grupo, momentos de improvisação e de realização de algumas frases de movimento, que exploram a recolha e o enviar. Segundo Deborah Jowitt (2004) “If there were prizes for wiliness in dancing, David Zambrano would win them all. He looks deft enough to slip through cracks, dive into keyholes, invade your heart. He’s loose and resilient without any loss of precision.” As aulas de Flying low podem conter diversos exercícios de Passing Through, que consistem no conceito de improvisação direccionada através de directrizes do professor. Para o coreografo venezuelano este tipo de exercícios têm como foco principal o estudo dos mecanismos do corpo e do movimento em si. Segundo Rico (2015) nos exercícios de Passing Through “the dancers are pushed to develop their relashionship with people around, understanding that the other is not an obstacle to pass but an enhancer, an inspirer or a guide. Other applied issues are the interconection with the surrounding architectural space, the dancer’s intern musicality and the constant and fast making of decisions. The guidelines for the improvisation allow the participants to use their own moving ways and vocabularies in any circumstance.“
Abaixo pode observar-se um Workshop de David Zambrano leccionado em 2012, no Centro de Dança Canal, em Madrid:
“David Zambrano dances with the awareness and explosive agility of a creature that has no defenses except speed and wit…”
Burt Supree, The Village Voice
A experiência de saborear esta técnica?
Durante a semana de 28 Março a 1 de Abril 2016, frequentei o workshop de Flying Low com David Zambrano, no Lugar Instável (Porto). O que me trouxe de novo esta técnica?
- Conexão entre palavra e intenção: o facto de associarmos a palavra ao movimento, enquanto o realizamos, revelou-se uma boa metodologia para melhor compreender as intenções por detrás do movimento. Ajuda-nos a compreender que cada acção por si só é uma pesquisa, um encontro consigo mesmo e com o outro;

- O trabalho de grupo e a aprendizagem: ao longo do workshop o trabalho em grupo e a par ganhou uma outra dimensão. A assimilação criada exclusivamente por cópia, revelou-se incompleta no momento de compreender todos os conceitos no próprio corpo. O trabalho em grupo e a pares veio colmatar esta lacuna. Assim, foi mais fácil incorporar os conceitos trazidos por David Zambrano, através da observação das dúvidas dos outros e da correcção em duo.

Para continuar a acompanhar o trabalho de David Zambrano basta procurar no seu site: +info: http://www.davidzambrano.org/
Aqui ficam as restantes fotografias do Workshop by Alexandra Ramos Sousa:
Bibliografia
- Hukam, K. (2009). Conversations with choreographers – David Zambrano. Amsterdam.
- Jowitt, D. (2004). A Man Dances and Everything is There: Skill, Smarts, Spirit, in Dance Theater Workshop.
- Rico, M. P. N. (2015) Flying Low and Passsing Through. Consultado a Fevereiro 12, 2015, em http://www.contemporary-dance.org/flying-low.
- Zambrano, D. (2007). David Zambrano. Consultado a Fevereiro 15, 2015 em http://www.davidzambrano.org.